Há dias em que as leituras da liturgia parecem conversar entre si com uma clareza quase desconcertante. Não disputam atenção, não se atropelam. Ao contrário: caminham juntas, como se apontassem todas para a mesma direção.
Hoje, essa direção tem nome e atitude: os pobres em espírito.
O profeta Sofonias já anunciava isso séculos antes, em meio a um tempo de juízo e purificação. Ele não fala de um povo numeroso nem poderoso, mas de um remanescente:
“Buscai o Senhor, humildes da terra… procurai a humildade” (Sf 2,3).
“Deixarei no meio de ti um povo humilde e pobre; no nome do Senhor porá sua esperança o resto de Israel” (Sf 3,12-13).
Não se trata de pobreza econômica como ideal romântico, mas de despojamento interior. Um povo que não se sustenta em si mesmo, que não se apoia na força, na esperteza ou na aparência de justiça. Um povo que espera no Senhor. Esse “punhado” é pequeno, mas é nele que a promessa permanece viva.
O Salmo retoma essa mesma lógica, revelando o rosto de um Deus que governa a partir dos pequenos:
“O Senhor faz justiça aos oprimidos, dá alimento aos famintos, liberta os cativos” (Sl 145[146],7).
“O Senhor ampara a viúva e o órfão, mas confunde os caminhos dos maus” (Sl 145[146],9).
Por isso o refrão não poderia ser outro:
“Felizes os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus” (cf. Mt 5,3).
O Reino não é prometido aos autossuficientes, mas aos que sabem que precisam. Aos que não confundem fé com vantagem, nem Deus com instrumento de poder.
São Paulo, escrevendo aos coríntios, torna isso ainda mais claro — e quase incômodo. Ele desmonta a lógica da glória humana:
“Entre vós não há muitos sábios segundo os critérios humanos, nem muitos poderosos, nem muitos nobres” (1Cor 1,26).
“Deus escolheu o que o mundo considera fraco… o que é desprezado… para que ninguém se glorie diante dele” (1Cor 1,27-29).
Aqui, a pobreza em espírito aparece como antídoto contra a soberba religiosa. Tudo o que somos em Cristo — sabedoria, justiça, santificação e libertação — não é conquista pessoal, mas dom (cf. 1Cor 1,30). Por isso, conclui Paulo:
“Quem se gloria, glorie-se no Senhor” (1Cor 1,31).
É então que o Evangelho segundo Mateus abre o Sermão da Montanha — não com uma ordem, mas com uma revelação:
“Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus” (Mt 5,3).
Jesus não começa exigindo; começa revelando quem já está dentro do Reino. Os pobres em espírito não são passivos, nem derrotados. São mansos (Mt 5,5), famintos de justiça (Mt 5,6), misericordiosos (Mt 5,7), promotores da paz (Mt 5,9). São perseguidos, mas permanecem fiéis (Mt 5,10-11).
E é significativo que a primeira e a última bem-aventurança terminem da mesma forma:
“Deles é o Reino dos Céus” (Mt 5,3.10).
O Reino começa no despojamento interior e permanece na fidelidade, mesmo quando isso custa caro.
Talvez seja isso que mais incomode: o Reino de Deus não se constrói com os cheios de si, mas com os que aprenderam a esvaziar-se. Não com os que se apoiam no próprio mérito, mas com os que confiam.
No fundo, ser pobre em espírito é isso:
não negociar a consciência,
não absolutizar o poder,
não transformar Deus em justificativa,
não perder a capacidade de depender.
É nesse solo humilde que o Reino cresce — silencioso, resistente, verdadeiro.
